Arquivo diário: 7 de setembro de 2016


PORQUE TERAPIA DE CASAL É CONTRAINDICADA NO CASO DE UM PSICOPATA ENVOLVIDO

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Por Rev. Sheri Heller, LCSW, in

http://pro.psychcentral.com/why-couples-therapy-is-contraindicated-with-a-psychopath/0014632.html#

tradução livre por Júlia Bárány

 

“A garantia de segurança num relacionamento abusivo jamais pode se basear na promessa do perpetrador, não importa quão sincero pareça. Deve se basear na capacidade de autoproteção da vítima. Enquanto a vítima não desenvolver um plano de contingência detalhado e realista e não demonstrar sua habilidade de realizá-lo, ela continua em perigo de ser repetidamente abusada.”

Judith Lewis Herman, (in Trauma e Recuperação: a consequência da violência – desde abuso doméstico ao terrorismo político, Basic Books, 1997, USA)

 

O ímpeto para escrever este artigo nasceu de uma infeliz descoberta do casamento de uma antiga cliente com o seu abusador, ostensivamente como resultado de uma bem-sucedida terapia de casal. Quando ela abandonou prematuramente o tratamento, deu a entender que ela estava reatando com o homem do qual se esforçou tanto para se livrar.

O processo de condicionamento funcional elaborado por B.F. Skinner nos mostra que o reforço e castigo/consequência desagradável influencia o nosso aprendizado. Um padrão de intermitente reforço estabelece imprevisibilidade e confusão. O abusador narcisista maligno se aproveita deste fenômeno.

Conforme a vítima se debate para descobrir o que precisa fazer para conseguir uma resposta positiva do seu abusador, a dissonância cognitiva se estabelece, propelida pela desesperada urgência em discernir uma razão.

Neste ponto, a vítima evidencia sinais da Síndrome de Estocolomo, uma forma de ligação traumática na qual as vítimas ficam patologicamente apegadas ao seu perpetrador. A vítima é capturada num ciclo viciante e deifica seu abusador, dependendo do seu torturador para sua redenção.

Este apego patológico é uma estratégia de sobrevivência, que capacita a vítima se dissociar da sua dor. Ao apagar o horror da sua realidade assumindo a perspectiva do abusador, a vítima afasta a ameaça de indefesa e terror que ela de fato vivencia.

 

ASSUMINDO A CULPA

O foco da vítima passa a ser apaziguar e agradar o abusador, mitigando assim o perigo. Com o passar do tempo, a vítima se identifica exageradamente com seu abusador, ignorando suas próprias necessidades e assumindo a responsabilidade pelo ‘sofrimento’ do seu abusador. Ela começa a acreditar que o abuso é culpa sua.

Quando a vítima finalmente chega ao fundo do poço, degradada ou descartada pelo narcisista, ou confrontada com infidelidades demais, espancamentos, ruína financeira ou outras formas diversas de abuso, ela pode estar pronta para procurar ajuda profissional. A fim de iniciar um processo de recuperação, aconselha-se a regra de não contato para cortar o vínculo tóxico.

Depois de trabalhar tão ardentemente para se estabilizar da TEPT (Transtorno pós-traumático) e construir as barreiras necessárias para se libertar de tal tratamento hediondo, por que a vítima que sofreu abuso psicológico e físico crônico nas mãos de seu parceiro romântico reata o contato?

Mais estonteante ainda: por que um psicoterapeuta concordaria em facilitar a terapia de casal dadas essas circunstâncias? Para responder esta pergunta é preciso entender as maquinações da psicopatologia.

 

MAQUINAÇÕES DA PSICOPATOLOGIA

Num livro fundamental, “A máscara da sanidade” (1941), o psiquiatra Hervey Cleckley referiu uma propensão extrema para o mal como um defeito neuropsiquiátrico (= Psicopatia) que alimenta a necessidade de destruir.

A psicopatia, conforme descrita por Cleckley, apresenta uma aparência de normalidade. Segundo Cleckley, o psicopata tem a estranha habilidade de ocultar seu defeito neuropsiquiátrico.

Cleckley afirma que “eles desarmam não só os que não conhecem tais pacientes, mas também pessoas que por experiência conhecem muito bem seu disfarce de honestidade.” (Cleckley 2011:342).

Daí, somos enganados, ludibriados pelo disfarce virtuoso do psicopata, por sua loquacidade, sua imagem ostensivamente calma e encantadora. O lustro de normalidade do psicopata pode ser tão infalível que até clínicos treinados não conseguem enxergar a malevolência por trás da máscara.

Se o fornecedor alvo (ou seja, o parceiro não psicopata) adquiriu autonomia e um módico autorrespeito durante a separação, o psicopata se apresentará imensamente empático e amoroso e até ansioso em assumir um processo terapêutico para dissipar quaisquer dúvidas e oscilações.

O psicopata consegue ressuscitar um relacionamento praticando assédio amoroso, persuasão convincente e criação de falsas esperanças. Durante a fase de lua de mel, o psicopata intensifica aquilo que o alvo procura, a tal ponto que seduz a vítima a aceitar esta narrativa romântica ficcional.

Quando encontra o terapeuta, o narcisista maligno cujo objetivo é preservar o relacionamento a fim de obter suprimento de seu parceiro romântico, se apresenta contrito, sensível e encantador.

Se ele for bom conhecedor da terapia psicológica, usará conceitos psicológicos para ‘inocentemente’ imputar à sua parceira distúrbios psicológicos que fazem dela a causadora não intencional da dinâmica doentia do casal. O psicopata pode até professar argumentos espirituais para amplificar ainda mais sua própria virtude moral.

Tudo isso é apresentado com sutil perspicácia e destreza.

Caso o terapeuta de casais falha em reconhecer um dos parceiros como sendo psicopático, o processo terapêutico pode culminar tragicamente numa perversa colaboração entre o terapeuta e o psicopata. Resulta que o abusador conseguirá realizar seu projeto furtivo enquanto subverte mais ainda a realidade da vítima.

Sob tais condições, o terapeuta de casais estruturará equivocadamente o tratamento a fim de resolver os problemas criados pela vítima que contribuíram com a discórdia da relação. O terapeuta será conivente com a premissa errada de que o abusador é apenas instigado pela conduta da parceira, e modificar esta conduta é primordial para conseguir harmonia.

Enquadrar o abuso perpetrado por um psicopata como um intercâmbio mútuo entre partes iguais quer dizer que qualquer tipo de conduta, incluindo violência física, é permitida e tratável para se conseguir uma relação saudável.

Com essa atitude o terapeuta não reconhece que o psicopata detém o poder no relacionamento abusivo e tampouco reconhece que amor e dominação são fundamentalmente incompatíveis. Além disso, mitiga a responsabilidade do psicopata e estigmatiza a vítima.

 

O ARRANJO DELIRANTE

Portanto, o terapeuta equivocado acaba sendo conivente com um arranjo delirante que gera graves repercussões para o parceiro vitimizado. É triste que esta postura só incentiva o psicopata a promover sua manipulação deletéria e reforça a ideia de que o sofrimento da vítima, causado pelo psicopata usando dissonância cognitiva, mentiras, infidelidades, violência e uma miríade de formas de engodo é algo equivocado e exagerado.

Subsequentemente, com o aval do terapeuta, a vítima regride à dissonância e fantasia alucinatória acreditando que ela recuperou legítimas expectativas de felicidade.

Inevitavelmente, a idealização acaba cedendo à desvalorização e o ciclo de estupro emocional se renova, deixando a vítima emocionalmente, psicologicamente, fisicamente, financeiramente e socialmente mais devastada ainda.