Arquivo diário: 5 de abril de 2017


A VIOLÊNCIA INVISÍVEL 4

É invisível não porque as pessoas não têm olhos, mas porque não conseguem ver, ou não querem ver.

Muitas vezes não existe foto do abuso, corpo de delito, provas, pois como se pode fotografar abuso psicológico?

Os sinais estão todos aí, explícitos, as crianças estão sofrendo, a vítima está sofrendo, mas como o agressor se apresenta como um homem de bem, com charme e amabilidade, com desenvoltura, com ar tranquilo, ninguém consegue ver a violência e a crueldade que ele pratica na intimidade.

Então as vítimas são retraumatizadas pelo nosso sistema judiciário cego, pelos profissionais de saúde ignorantes dessa realidade, pela família e pelos amigos que acabam culpando a própria vítima de ter caído na armadilha, numa atitude típica de quem não quer olhar para si mesmo, preferindo mandar o bode expiatório para o deserto pagar pelos pecados de todos.

É uma realidade tão absurda que de fato é extremamente difícil conceber e muito mais de aceitar. Parece fantasia alucinatória inventada pela vítima. Assim é porque o manipulador convence a todos, com sua lábia e sua tranquilidade de que o culpado é o outro, ou seja, a vítima. Assim é também porque a vítima de fato parece ter perdido a razão. Mas ninguém vê PORQUE ELA PARECE LOUCA!

A vítima tem todos os sinais de trauma, chora, se desespera, tenta contar aos outros o que de fato aconteceu e ninguém acredita, está com a saúde abalada, sem dinheiro e sem capacidade de se reerguer. A vítima sofreu abuso psicológico, emocional, relacional, profissional, econômico e foi afastada de todo o sistema de apoio que poderia ter.

Enquanto em público, o abusador faz papel de marido exemplar, de pai amoroso, querendo transmitir a imagem de família perfeita. Na intimidade, alterna as máscaras: uma hora é médico, outra, monstro. E a vítima nunca sabe quem vai aparecer dessa vez, ficando em estado de alerta constante, adrenalina circulando doidamente pelo corpo, tirando o sono, a capacidade de funcionar e de pensar direito. A vítima é submetida a tortura psicológica que a leva a duvidar de si mesma, de sua própria sanidade, e ela acaba dando razão em tudo ao abusador. Na tentativa de minimizar o inferno no qual se transformou sua vida, acaba dando tudo para o abusador: seu tempo, sua atenção constante, seus bens, o controle sobre sua própria vida. A vítima passa a orbitar ao redor do abusador, sua vida não tem mais outro sentido a não ser esse.

A vítima entra num estado de zumbi. Ela nem se reconhece mais, muito menos os outros a reconhecem. Está gasta, feia, louca. Uma megera. Pensa em acabar com a própria vida, pois qualquer alternativa parece melhor do que o inferno que está vivendo. É um perfeito motivo para o abusador olhar comiserado para sua ex, ou quase ex, e justificar o seu afastamento e sua busca de consolo e afeto nos braços de outra (substituta que ele já estava sondando antes desta fase de destruição da vítima atual, pois ele jamais fica sem alguém para vampirizar).

Esse distúrbio de personalidade tem sido estudado e diagnosticado há vários anos, entre os estudiosos mais profundos Robert Hare, que publicou o livro: Sem consciência, o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós, e Serpentes de terno.

Há muito mais psicopatas no meio de nós do que nas prisões. Uma pequena parte chega a cometer crimes hediondos com as próprias mãos. Os outros estão nas famílias, nas empresas, nas instituições, nas profissões, camuflados sempre para poderem agir de acordo com sua natureza de vampiro e de torturador que tem prazer em torturar. A manifestação depende do grau de sutileza que o psicopata atinge, de acordo com sua cultura, sua educação e seu ambiente.

Existe um diagnóstico infalível que é dado por meio do Petscan, que é a imagem do cérebro em funcionamento. No psicopata, a região orbito-frontal, logo atrás dos olhos, se apresenta azul, o que significa falta de atividade. Em pessoas normais, essa região se apresenta de amarelada a vermelha. Ela é responsável por processar sentimentos nobres humanos como solidariedade, respeito, responsabilidade, compaixão, empatia, afeto, amor.

Então, como é que essa criatura que se apresenta em público como amorosa, preocupada com os filhos, a “esposa”, passa indetectada perante os olhos dos outros?

ESSA CRIATURA FINGE.

O psicopata tece uma trama extensa e bem articulada de mentiras. Convence a todos da veracidade desses fatos que fazem parte, portanto, de uma obra de ficção que ele vai construindo ao longo de sua vida.

E você que acreditou nele, caiu na trama, fazendo-o se regozijar ocultamente com o sucesso de sua manipulação.

A violência é invisível. Nem você percebe que foi violentado no seu senso de verdade e de justiça.