VOCÊ NÃO FEZ NADA DE ERRADO


QUANDO VOCÊ ENTENDE QUE A PESSOA É PSICOPATA, (E O QUE É UM PSICOPATA) TUDO COMEÇA A FICAR CLARO

 

Aos poucos fui descobrindo mais mentiras, inconsistências, e de repente o quebra-cabeça começou a formar uma imagem.

Como era possível alguém olhar você nos olhos e dizer tal mentira descarada?

Que tipo de pessoa manipularia seu cônjuge como ele o fez nos últimos dois anos de nossa convivência? E talvez o tenha feito desde o início do nosso casamento? Flashes de cenas esquisitas, de seu comportamento incompreensível, de sua raiva contra mim nos momentos mais inadequados quando eu estava fragilizada, faziam minha cabeça girar num turbilhão de emoções dolorosas. Pedaços do meu passado que nunca fizeram sentido agora se tornavam claros: ele não tinha empatia. Se ele não sentia empatia nesses momentos delicados, ele nunca a sentiu. Então eu passei anos me dedicando com amor, compaixão e solidariedade, dando tudo de mim, de meus recursos, minha energia, meu trabalho para tudo ser tragado sem dó nem piedade por um buraco negro?

Essa descoberta dolorosa me derrubou de vez. Caí num choro convulsivo sem parar.

Consegui pegar no telefone e ligar para um amigo que sempre me apoiou nos piores momentos.

– Não pode ser -, ele respondeu. – Como é possível alguém não sentir absolutamente nenhuma empatia?

Esse meu amigo é uma das pessoas mais empáticas que conheço. Todo o seu relacionamento com o mundo e com as pessoas se fundamenta na empatia. Como eu também sou assim, isso me cegou para a falta de empatia do meu marido.

Desliguei, e o choro continuou a me sacudir até as entranhas. Um sentimento horrível de nojo e desespero me esmagava. Lá no fundo vinha se avolumando um medo gelado. Quem era esse homem? Com quem estive dormindo todos esses anos?

Consegui pegar no telefone e ligar para minha irmã. Finalmente você percebeu que havia algo de errado com esse sujeito, disse ela. Nós não gostamos dele desde o início. Todos sentíamos que algo não combinava com o discurso dele. Sentíamos como que uma nuvem escura e malcheirosa o envolvesse. Mas não tínhamos como falar com você. Você estava apaixonada e deslumbrada.

Então fui falar com um terapeuta. A minha primeira pergunta foi: o que é um psicopata?

Essa pergunta foi o início de uma longa travessia do deserto cheio de escombros e dor em que se transformou minha vida.

A resposta do terapeuta, repetida três vezes, foi a corda que ele jogou no fundo do poço em que eu estava:

Você não fez nada de errado.

Você não fez nada de errado.

Você não fez nada de errado.

Júlia Bárány

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