A FUNÇÃO DA DOR


Na minha prática terapêutica, o que busco não é alívio da dor, embora no primeiro momento o alívio seja urgente, pois a pessoa está mergulhada no sofrimento e não consegue viver. As vítimas de psicopata passam por um sofrimento atroz porque em primeiro lugar esse sofrimento não faz sentido. Não há nada que a vítima tenha feito que justifique o abuso sofrido. Em todos os casos que atendi até hoje, o que aconteceu foi exatamente o contrário: a vítima se dedicou, amou, se doou, não só de si, mas de tudo que possuía. E mesmo assim, ela chega ao meu consultório se sentindo culpada, porque é isso que o abusador a fez acreditar. Essa é uma característica recorrente nessas vítimas.

A vítima foi manipulada, torturada psicologicamente, entre outras técnicas com dissonância cognitiva, uma técnica cruel e eficiente de convencer a pessoa de que ela não viu o que viu nem ouviu o que ouviu. A pessoa passa a não confiar mais no próprio discernimento. Quando se trata de relacionamento familiar ou íntimo, a vítima está vulnerável e incapaz de se defender, pois não tem como esperar ser atacada dentro do próprio lar por pessoa de sua intimidade, como pai, mãe, irmão, esposo ou esposa, filho ou um outro parente. Quando se trata de relacionamento profissional, de funcionário e chefe, ou de colega de trabalho, ainda há vínculos e poder envolvidos, que intimidam, restringem ou paralisam a vítima, a ponto de ela não poder reagir.

A teia de mentiras e meias-verdades, manipulações, campanha de difamação e de enlouquecimento, afastamento de todo o sistema de suporte, provocação de discórdia colocando as pessoas umas contra as outras dentro de uma mesma casa são técnicas que vão destruindo a pessoa a ponto de muitas vezes ela beirar o suicídio.

Então, após um primeiro momento de aliviar a dor para torná-la manejável, o que faço é ajudar a pessoa a atravessar o inferno.

Em primeiro lugar, essa dor precisa ser validada! É preciso dar um sentido para esta dor. Digo aos meus pacientes que eles só não sentiriam dor se fossem de pedra. Que é legítimo sentir essa dor, essa raiva. É mais do que legítimo querer vingança. No entanto, procuro mostrar que vingança só vai envenenar a própria pessoa. Procuro ajudar a pessoa a por para fora a raiva, a mágoa, a revolta, a dor.

A compreensão do abuso e do abusador é um segundo passo. Frases como: “Como a minha própria mãe foi capaz de fazer isso comigo?” começam a fazer sentido quando eu explico o que é um psicopata e como ele age, e para que ele age assim. Pois todos eles seguem um script…

Um terceiro passo é elaborar um esquema para cessar a fonte do sofrimento, aprendendo a lidar com a situação ou saindo fora dela.

Em seguida, levá-la a se sagrar vencedora não de algo externo, mas vencedora de si mesma, num processo de morte para o que não serve mais e renascimento para uma nova vida.

A dor é o coadjuvante no processo de metamorfose, como a lagarta que entra no casulo para sair dele um dia borboleta. A dor nos abre os olhos para dentro e para fora de nós. A dor nos faz resgatar a nossa força, a nossa essência, a nossa verdade.

“É a dor que regula a nossa consciência e impede que absorvamos de uma só vez um excesso de impressões do nosso meio ambiente”, o que traria prejuízo aos nossos órgãos dos sentidos. Para o Dr. Douglas Baker, autor de Anatomia Esotérica, a dor funciona como um órgão do sentido, o mais primitivo, anterior ao olfato, paladar, visão. A dor é responsável pela nossa sobrevivência.

Mais adiante, o autor diz: “Assim como o enjoo do mar intensifica o sentido da visão, a dor nos afina com uma gama mais ampla e sensível de impulsos.”

Ao abordar a dor emocional, mental, o autor a relaciona com o grau de consciência espiritual e a decorrente responsabilidade que a pessoa sente por si mesma e pelos outros.

“A dor é uma das serpentes que se entrelaçam ao redor do caduceu… a outra é a alegria. A dor e a alegria levadas ao clímax são o sofrimento e o êxtase. Quando as duas se harmonizam no êxtase doloroso, estão ligadas aos testes da iniciação.”

Pois é na transcendência do prazer e da dor que o objetivo é alcançado.

“Aprendemos com a dor dos nossos erros”. Essa dor não deve ser evitada. Ela nos ensina. Ela é bem-vinda quando reconhecemos essa sua função.

A dor das doenças é um agente cármico, portanto, libertador. A doença nos ensina a cuidar de nosso corpo, da nossa alma, e quando superada, nos fortalece. Mesmo nas dores crônicas, aprendemos. Há a dor cármica mais abrangente, como a dor da humanidade assumida por alguns para a redenção.

“Assim como a dor dilata as pupilas dos olhos, permitindo maior entrada de luz, a dor planetária, suportada pelos poucos que são capazes de compartilhá-la a qualquer momento, irá permitir um influxo maior da luz divina ou consciência.”

O autor pontua o laço de amor que se constrói entre dois seres quando um se compadece com a dor do outro. Esse é o laço que vou construindo com os meus partilhantes/sobreviventes. Sem esse laço, o que eu fizer não terá efeito algum.

A dor é o impulso mais forte do ser para a metamorfose.

Por fim, o autor aborda a dor da consciência. Esta só acomete aqueles que a possuem. Portanto, seres humanos, não psicopatas.

 

Depois desse processo, vejo como as pessoas se iluminam, como elas passam a ser mais amorosas, compreensivas, vibrantes com a vida, e um dia, quem sabe, consigam agradecer o horror que viveram.

Elas terão adquirido a consciência e com ela a liberdade por meio do conhecimento do bem e do mal. O fruto da árvore do paraíso terá cumprido sua tarefa.

Poderemos então colher o fruto da segunda árvore, a do conhecimento da vida, porque para colhê-lo, teremos que ter aprendido a amar. Amar inclusive os nossos inimigos, amar o abusador. Essa tarefa é para super-humanos. Um dia chegaremos lá.

 

Júlia Bárány

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