A VIOLÊNCIA INVISÍVEL 4


É invisível não porque as pessoas não têm olhos, mas porque não conseguem ver, ou não querem ver.

Muitas vezes não existe foto do abuso, corpo de delito, provas, pois como se pode fotografar abuso psicológico?

Os sinais estão todos aí, explícitos, as crianças estão sofrendo, a vítima está sofrendo, mas como o agressor se apresenta como um homem de bem, com charme e amabilidade, com desenvoltura, com ar tranquilo, ninguém consegue ver a violência e a crueldade que ele pratica na intimidade.

Então as vítimas são retraumatizadas pelo nosso sistema judiciário cego, pelos profissionais de saúde ignorantes dessa realidade, pela família e pelos amigos que acabam culpando a própria vítima de ter caído na armadilha, numa atitude típica de quem não quer olhar para si mesmo, preferindo mandar o bode expiatório para o deserto pagar pelos pecados de todos.

É uma realidade tão absurda que de fato é extremamente difícil conceber e muito mais de aceitar. Parece fantasia alucinatória inventada pela vítima. Assim é porque o manipulador convence a todos, com sua lábia e sua tranquilidade de que o culpado é o outro, ou seja, a vítima. Assim é também porque a vítima de fato parece ter perdido a razão. Mas ninguém vê PORQUE ELA PARECE LOUCA!

A vítima tem todos os sinais de trauma, chora, se desespera, tenta contar aos outros o que de fato aconteceu e ninguém acredita, está com a saúde abalada, sem dinheiro e sem capacidade de se reerguer. A vítima sofreu abuso psicológico, emocional, relacional, profissional, econômico e foi afastada de todo o sistema de apoio que poderia ter.

Enquanto em público, o abusador faz papel de marido exemplar, de pai amoroso, querendo transmitir a imagem de família perfeita. Na intimidade, alterna as máscaras: uma hora é médico, outra, monstro. E a vítima nunca sabe quem vai aparecer dessa vez, ficando em estado de alerta constante, adrenalina circulando doidamente pelo corpo, tirando o sono, a capacidade de funcionar e de pensar direito. A vítima é submetida a tortura psicológica que a leva a duvidar de si mesma, de sua própria sanidade, e ela acaba dando razão em tudo ao abusador. Na tentativa de minimizar o inferno no qual se transformou sua vida, acaba dando tudo para o abusador: seu tempo, sua atenção constante, seus bens, o controle sobre sua própria vida. A vítima passa a orbitar ao redor do abusador, sua vida não tem mais outro sentido a não ser esse.

A vítima entra num estado de zumbi. Ela nem se reconhece mais, muito menos os outros a reconhecem. Está gasta, feia, louca. Uma megera. Pensa em acabar com a própria vida, pois qualquer alternativa parece melhor do que o inferno que está vivendo. É um perfeito motivo para o abusador olhar comiserado para sua ex, ou quase ex, e justificar o seu afastamento e sua busca de consolo e afeto nos braços de outra (substituta que ele já estava sondando antes desta fase de destruição da vítima atual, pois ele jamais fica sem alguém para vampirizar).

Esse distúrbio de personalidade tem sido estudado e diagnosticado há vários anos, entre os estudiosos mais profundos Robert Hare, que publicou o livro: Sem consciência, o mundo perturbador dos psicopatas que vivem entre nós, e Serpentes de terno.

Há muito mais psicopatas no meio de nós do que nas prisões. Uma pequena parte chega a cometer crimes hediondos com as próprias mãos. Os outros estão nas famílias, nas empresas, nas instituições, nas profissões, camuflados sempre para poderem agir de acordo com sua natureza de vampiro e de torturador que tem prazer em torturar. A manifestação depende do grau de sutileza que o psicopata atinge, de acordo com sua cultura, sua educação e seu ambiente.

Existe um diagnóstico infalível que é dado por meio do Petscan, que é a imagem do cérebro em funcionamento. No psicopata, a região orbito-frontal, logo atrás dos olhos, se apresenta azul, o que significa falta de atividade. Em pessoas normais, essa região se apresenta de amarelada a vermelha. Ela é responsável por processar sentimentos nobres humanos como solidariedade, respeito, responsabilidade, compaixão, empatia, afeto, amor.

Então, como é que essa criatura que se apresenta em público como amorosa, preocupada com os filhos, a “esposa”, passa indetectada perante os olhos dos outros?

ESSA CRIATURA FINGE.

O psicopata tece uma trama extensa e bem articulada de mentiras. Convence a todos da veracidade desses fatos que fazem parte, portanto, de uma obra de ficção que ele vai construindo ao longo de sua vida.

E você que acreditou nele, caiu na trama, fazendo-o se regozijar ocultamente com o sucesso de sua manipulação.

A violência é invisível. Nem você percebe que foi violentado no seu senso de verdade e de justiça.


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4 pensamentos em “A VIOLÊNCIA INVISÍVEL

  • EsperancaSim
    EsperancaSim

    Fico pensando na complexidade de lidar com psicopatas na sociedade… se já é difícil nas relações mais íntimas, imagine então lidar (e sobreviver) com eles quando são nossos chefes, nossos líderes, nossos poderosos.
    Me parece ser um quadro assustador.

    • Micaela Hon
      Micaela Hon Autor do post

      O principal, EsperancaSim, é saber o que são e que, em primeiro lugar, existem. Muitos não acreditam que tais criaturas com aspecto de humanos podem não ser humanos. Não acreditam que existam criaturas totalmente SEM CORAÇÃO. Quando sabemos que existem e sabemos como agem, nós nos defrontamos com o mal e o olhamos nos olhos, e o CONTROLAMOS. Não dá para destruir o mal, nem combatê-lo com mais mal. A maneira mais eficiente de lidar com ele é reconhecê-lo e controlá-lo para que não efetue sua ação destruidora. Assim aos poucos ele vai definhando por falta de alimento. Se as pessoas numa empresa, por exemplo, se unirem e não se deixarem intimidar nem controlar pelo psicopata chefe, ele não terá como agir. O problema é que sempre ele consegue colocar uns contra os outros, criar um fã clube que acredita piamente nele, e assim ele atua. Abram os olhos!

  • lucy

    Texto perfeito. Descreve numa perfeição, que somente quem sobreviveu se enquadra nele. Pois quem ainda está na situação não tem noção do que vive. É tanto que não dar conta de detalhar o que esta vivenciando, de uma coisa é certa, a cada dia que passa definha mais e mais.
    Foram muitas tarjas pretas, depressão, enxaqueca… Há! Hoje eu sei o porquê de tanta enxaqueca. Para fechar com chave de ouro o inferno vivido, tive uma queda de cabelos que ficava com trauma de banhar e lavar os cabelos, vendo a quantidade que caia… Para o desespero ser maior lembrava que a amante do tal tinha cabelos longos rs hoje consigo rir, mas há três anos as lágrimas rolavam.
    E a separação? Essa sim vem amarga, a manipulação continua em dobro porque você fica com os filhos. Não há forma melhor de continuar a tortura. A família do coitadinho, do tadinho que agora só trabalha pra sustentar os filhos, passando a mão na cabeça do pobrezinho que está sofrendo muito sem os filhos e a megera da ex não perdoa ele, só quer pensão e ele nessa situação de choro…sem se darem conta que estão alimentando um monstro.
    Saber o que é Fenix?Jamais pensei que tivesse uma descrição tão perfeita, olhar a imagem de um pássaro renascendo das cinzas e me ver nela, e saber que nada de mitologia grega e sim todos que conseguiram sair da “teia” do “ciclo” que não se fecha, estão naquela imagem.
    Esse site na época da minha libertação caiu como um pingo de milagre em um olho cego de nascença. Olha que eu me considerava esperta, inteligente, desconfiada, atenta. Nada adiantava, daí vocês tirem as conclusões.

    Somente detectando como os psicopatas agem que damos os primeiros passos…aos poucos vamos enxergando e “Conhecereis a verdade e ela vos libertará.”(João 8:32).

    • Micaela Hon
      Micaela Hon Autor do post

      Lucy, que bom que você já despertou e está fazendo a travessia do deserto. Agradeço o seu depoimento que pode servir para outros sobreviventes. Você sofreu a síndrome pós-traumática que todo sobrevivente sofre.
      Cuide de sua saúde, dos seus filhos, que uma vida inimaginável antes os espera. Sim, a imagem da Fênix renascendo das cinzas é poderosa. Ela mostra quem você realmente é.